A anorexia passou de moda mas ainda faz vítimas como Isabelle

02/01/2011 at 1:40 pm Deixe um comentário

31.12.2010 – 12:46 Por Francisca Gorjão Henriques

“Nenhuma rapariga quer parecer um esqueleto”, disse uma vez a modelo francesa que morreu aos 28 anos e passou mais de metade da vida a lutar contra a doença.

Na Internet há vários sites que defendem a anorexia como estilo de vida e é fácil encontrarem-se conselhos como este: “Lembra-te que às vezes tens de comer. Não muito, claro, mas tens de comer alguma coisa. Certifica-te que comes pelo menos duas coisas por dia”. Ou: “Há comida no frigorífico, certo? Errado. Tudo o que está no frigorífico é um falhanço. É mesmo isso que queres?” E ainda: “Limpar coisas sujas pode fazer-te perder o apetite. A casa-de-banho, por baixo do lava-loiças, esfregar o caixote do lixo, qualquer coisa suja ou malcheirosa. A porcaria, misturada com o cheiro da limpeza, poderá afastar-te da comida por uns tempos”. Outras recomendações: “Toma seis pequenas refeições por dia. Pega em duas maçãs e corta-as em pedaços para fazeres delas seis refeições. Assim, o teu corpo será enganado e levado a pensar que está a comer mais”.
A modelo francesa Isabelle Caro, que sofria de anorexia e cuja morte, a 17 de Novembro, só foi conhecida há dois dias (morreu com 28 anos), afirmou uma vez: “Nenhuma rapariga nova quer parecer um esqueleto… Não se acredita que alguém queira parecer assim.” Mas era com todos os ossos à vista que a própria Isabelle Caro desfilava. 

As causas da sua morte ainda não são conhecidas – nem as razões pelas quais só foi divulgada mais de um mês depois. Em Setembro, terá escrito um email ao seu amigo Vincent Bigler, cantor suíço, informando que tinha estado hospitalizada durante 15 dias devido a uma grave doença respiratória. Sabe-se que esteve a trabalhar em Tóquio antes de morrer, em França.

Quando o italiano Oliviero Toscani (que fez várias campanhas polémicas para a Benetton) decidiu fotografá-la para um cartaz antianorexia da marca de lingerie Nolita, em 2007, Isabelle pesava apenas 27 quilos, espalhados pelo seu 1,65 metros de altura. Decor- ria a Semana da Moda de Milão e o cartaz da modelo francesa nua, só pele e osso, peito descaído e feridas na pele à vista, provocou o efeito pretendido: um profundo choque.

Isabelle Caro sofria de anorexia des- de os 13 anos. Um ano antes da campanha de Toscani pesava 25 quilos e entrou em coma. Na autobiografia A Menina Que Não Queria Engordar, publicada em 2008, falou da sua batalha contra a morte. E denunciava sites “Pró-Ana” (anorexia). No seu blogue descrevia-se como “um floco de neve invisível num nevão, que está a lutar, a lutar para viver, apesar de anos de sofrimento, e que está a gritar a todo o mundo para dizer que a anorexia é um inferno do qual é preciso escapar enquanto há tempo”.

Uma doença genética

A anorexia nervosa é uma disfunção alimentar (caracterizada por uma dieta insuficiente) que está descrita desde o século XIX. O facto de ser bastante mediatizada faz por vezes esquecer que pertence à lista das doenças raras.

Pode ser-se extremamente magro, mas não é anoréctico quem quer. O psiquiatra Daniel Sampaio, um dos responsáveis pela consulta de doenças do comportamento alimentar do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, explica ao PÚBLICO que “a anorexia é uma doença de base genética”. O emagrecimento “só por si não leva à ano- rexia nervosa”, é preciso que haja uma “vulnerabilidade genética”.

É possível viver toda a vida sem des- cobrir essa propensão, mas também pode bastar apenas um acontecimento traumático para que a anorexia ner- vosa se desencadeie. No caso de Isabelle Caro poderá ter sido o facto de lhe terem dito, aos 12 anos, que teria de emagrecer dez quilos caso quisesse fazer carreira como modelo. Pesava então 40 quilos. Daí para a frente começou uma luta contra a alimentação.

Por muito que emagrecesse, nunca era o suficiente. “Empanturram-nos com comida horrível como um pato gordo. Somos obrigados a ganhar peso [no hospital]. E, assim que nos libertam, voltamos a perder peso. Pelo menos foi o que me aconteceu”, escreveu na sua biografia.

Com uma reduzida taxa de incidência (0,4 por cento) – Daniel Sampaio entende que não fazem falta campanhas de sensibilização: “Falar pode levar a imitações dos comportamentos”, diz. É no entanto necessário “salientar a importância da alimentação saudável e de nunca fazer dieta sem um controlo médico”. Apesar de reconhecer que a anorexia é invulgar, Maria Adelaide Braga, presidente da Associação de Familiares e Amigos dos Anorécticos e Bulímicos, salienta que “a doença tem con- tinuado a progredir” e “há sempre casos novos e graves”. Em 2009, a associação fez um estudo em que concluía que em Portugal aparece um novo doente a cada dia que passa.

Heroin chic passou de moda

“Quando a foto [de Isabelle Caro para a campanha] apareceu, causou um impacto grande, mas não evitou que a doença continuasse a progredir”, afirma Maria Adelaide Braga. Faltam medidas de sensibilização ou até de “proibição de alguns sites que favorecem e dão um relevo positivo à doença”. Os jovens acham que a anorexia lhes vai “dar o corpo que querem, es- guio e falso”. A generalização do con- ceito de beleza ligado ao peso baixo não ajuda, acusa Maria Adelaide Braga.

Mas, para o produtor de moda Pau- lo Gomes, a magreza excessiva publicitada ao longo dos anos 1990, do chamado heroin chic, já passou de moda. “Hoje em dia voltaram as curvas. Não se faz a apologia desse tipo de corpos.”

Paulo Gomes realça que as modelos anorécticas aparecem em “casos muito, muito pontuais” – “trabalho há 25 anos e apenas tive um caso de bulimia”, outra disfunção alimentar.

Os actuais símbolos de elegância re- flectem “uma mulher saudável”, aponta Paulo Gomes. Às vezes, a moda surge como “refúgio e é usada como desculpa”.

Notícia completa em Jornal O Público

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